Carregando, por favor aguarde...
Pular para o conteúdo

Caetano Veloso aponta no single ‘Anjos tronchos’ a arte como escape do malefício do Vale do Silício | Blog do Mauro Ferreira

[ad_1]

Composição: Caetano Veloso

Edição: Uns Produções Artísticas / Sony Music

♪ Em 2021, como em 1992, alguma coisa está fora da ordem mundial. Em mundo cibernético, parte da ruína se origina do Vale do Silício, reduto norte-americano de empresas universais de tecnologia que, com o uso de algoritmos, manipulam povos como gados em redes sociais.

É dessa desordem mundial que trata Anjos tronchos, primeiro retumbante single de Meu coco, álbum de músicas inéditas que Caetano Veloso lançará no último trimestre deste ano de 2021.

O poder do verbo do artista consegue sintetizar imagens que revitalizam reflexão sobre tema que, a rigor, já está na ordem do dia. Anjos tronchos versa sobre a desordem de mundo tecnológico em que “palhaços líderes brotam macabros, munidos de controles totais”.

Como em tantas outras composições do artista, caso de Fora da ordem (1992), a música foi posta em Anjos tronchos a serviço de letra que se impõe sobre os sons sombrios dos sintetizadores de Lucas Nunes – músico que assina a produção musical da faixa juntamente com Caetano Veloso, tendo mixado a gravação com Daniel Carvalho – e os toques econômicos, mas precisos, do baixo e da guitarra de Pedro Sá.

Pedro, cabe lembrar, é músico que integrava a BandaCê, trio indie carioca que deu o tom dos três últimos autorais álbuns de estúdio – (2006), Zii e zie (2009) e Abraçaço (2012) – do cantor e compositor baiano.

Ao longo de quase quatro minutos, alguns poucos acordes se repetem, como mantras, na maioria das estrofes em que Caetano denuncia os horrores de mundo macabro que, a reboque da tecnologia, empodera os tais “palhaços líderes” e mata com “post vil”.

Anjos tronchos é canção que exprime desolamento, sufocada em nuvens tóxicas. “Que é que pode ser salvação? / Que nuvem, se nem espaço há? / Nem tempo, nem sim nem não. Sim: nem não”, reflete o artista desesperançado.

A desesperança remete à lembrança de “tempos em que havia tempos atrás” em verso que serve como deixa para Caetano rememorar luminoso ponto inicial da própria marcha artística com a apresentação, em festival de tempos analógicos, de Alegria alegria (Caetano Veloso, 1967), composição citada através do assertivo verso seguinte – “E eu vou, por que não? Eu vou, por que não? Eu vou” – em que Anjos tronchos se desloca por alguns segundos para a nação musical nordestina, evocada pela marcação da zabumba e do triângulo percutidos pelo carioquíssimo Pretinho da Serrinha.

Entre tanta desordem e desolação, a Arte se aninha na poética de Anjos tronchos, apontada como a salvação, o escape, o bote capaz de resgatar vidas do torpor das redes sociais.

“Mas há poemas como jamais / Ou como algum poeta sonhou”, pondera Caetano, após receitar Arnold Schönberg (1874 – 1951), Anton Webern (1883 – 1945), John Cage (1912 – 1992) – compositores vanguardistas que desafiaram a ordem mundial – e canções para os momentos em que não somos otários.

O verso final de Anjos tronchos“Miss Eilish faz tudo do quarto com o irmão”, alusivo ao modus operandi do single que em 2016 catapultou a cantora e compositora norte-americana Billie Eilish ao estrelato – sopra a esperança de que, como um índio, a arte descerá de estrela colorida, mais avançada do que a mais avançada da tecnologias, para implodir os malefícios do Vale do Silício.

Caetano Veloso lança o single ‘Anjos tronchos’, primeira amostra do álbum ‘Meu coco’ — Foto: Divulgação

♪ Eis a letra de Anjos tronchos, música inédita gravada por Caetano Veloso para o álbum Meu coco e lançada em single na noite de quinta-feira, 16 de setembro:

“Uns anjos tronchos do Vale do Silício

Desses que vivem no escuro em plena luz

Disseram: vai ser virtuoso no vício

Das telas dos azuis mais do que azuis

Agora a minha história é um denso algoritmo

Que vende venda a vendedores reais

Neurônios meus ganharam novo outro ritmo

E mais e mais e mais e mais e mais.

Primavera Árabe – e logo o horror

Querer que o mundo acabe-se: sombras do amor

Palhaços líderes brotaram macabros

No império e nos seus vastos quintais

Ao que revêm impérios já milenares

Munidos de controles totais.

Anjos já mi ou bi ou trilionários

Comandam só seus mi, bi, trilhões

E nós, quando não somos otários,

Ouvimos Schönberg, Webern, Cage, canções…

Um post vil poderá matar

Que é que pode ser salvação?

Que nuvem, se nem espaço há?

Nem tempo, nem sim nem não. Sim: nem não

Mas há poemas como jamais

Ou como algum poeta sonhou

Nos tempos em que havia tempos atrás

E eu vou, por que não? Eu vou, por que não? Eu vou

Uns anjos tronchos do Vale do Silício

Tocaram fundo o minimíssimo grão

E enquanto nós nos perguntamos do início

Miss Eilish faz tudo do quarto com o irmão”





[ad_2]

Fonte da Notícia