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Geraldo Sarno pensava o presente a partir das memórias e projetava um novo Brasil em seus filmes | Cinema

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22/02/2022. Dia da morte de Geraldo Sarno. Até no dia de morrer, Geraldo fazia poesia. Os números formam um palíndromo ambigrama (de frente para trás e de ponta cabeça). Palíndromo vem do grego “pálin” (πάλιν), que significa “novamente”, e “dromos” (δρόμος), “estrada” ou “caminho”. São elementos com simetria linear, que continuam com o mesmo significado quando lidos de trás para frente. Já um ambigrama é uma palavra ou frase desenhada de maneira que pode ser lida a partir de diferentes pontos de vista. Os números 2 e 0 podem ser lidos de cabeça para baixo sem alterar o sentido. O cinema de Geraldo Sarno continua na estrada novamente, mesmo sem o condutor. Suas obras viram o Brasil, ou melhor, os Brasis de cabeça para baixo.

Tive uma relação próxima a Geraldo Sarno nos últimos dois anos, ainda que distante fisicamente por causa da pandemia do novo coronavírus. Não nos conhecíamos pessoalmente mas tive o privilégio de alguns grandes encontros virtuais com ele. O primeiro deles foi há exatos dois anos. Não poderia imaginar que 24 meses após aquele 23 de fevereiro de 2020 não teria a oportunidade de lhe dar um abraço, ou um cheiro, como se diz na sua Bahia querida. Fiz uma entrevista com Geraldo para meu livro “Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade”.

Geraldo Sarno em iIlustração de Gidalti Jr. para o livro ‘Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade’ — Foto: Divulgação

A possibilidade de entrevistar Geraldo Sarno nasceu de maneira despretensiosa durante uma conversa com o amigo jornalista e cineasta Juca Badaró. Foi Juca que conversou com “Geraldão” e conseguiu costurar meu primeiro contato com ele. Por telefone, ele em Vitória da Conquista, na Bahia, e ecu em São Paulo, conversamos por quase uma hora. Parecia que éramos velhos conhecidos. O assunto extrapolou o cinema. Falamos bastante de política, cultura, filosofia. Das 13 perguntas originalmente formuladas para a entrevista, consegui fazer apenas 4. Geraldo Sarno é um ser inquieto, indomável e provocador. Foi um aprendizado e tanto conduzir essa entrevista. Dois meses após a realização dela, Geraldo me envia por WhatsApp a seguinte mensagem: “Oh! Fico muito contente, contente mesmo. Vc me fez repensar a questão do documentário e da ficção e acho que pela primeira vez consegui formular de maneira precisa o que realmente penso sobre o assunto. E pude retomar uma linha paralela que sempre me intrigou, e me encantou, que são os trechos do ‘Dom Quixote’ e da ‘Odisseia’ citados. Poder, pela primeira vez, fazer a aproximação entre esses trechos e do documentário e ficção no cinema foi pra mim um momento muito interessante. E foi sua insistência no tema que me permitiu retomar e fechar essa questão. Obrigadão.” Quem agradece sou ecu!

Geraldo Sarno nasceu em 1938, na pequena cidade de Poções, na Bahia. Filho de comerciantes italianos, cresceu no meio do sertão. O contraste de culturas foi ampliado com o acesso ao cinema na sua infância, quando frequentava as salas da cidade e colecionava fotogramas com os amigos para fazer projeções na sua casa. Geraldo foi para Cuba em dezembro de 1962, indicado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em função de sua participação no Centro In style de Cultura (CPC). A opção pela viagem fez o jovem, recém formado em Direito, desistir do primeiro lugar em um concurso público para oficial judiciário do Tribunal Regional do Trabalho de Salvador. Após estudar cinema durante um ano em Cuba, Geraldo volta para o Brasil praticamente na mesma época do Golpe Militar de 1964. Articula-se com Thomas Farkas, Maurice Capovilla, Vladimir Herzog, Roberto Santos e outras pessoas envolvidas com cinema no Brasil. Seus primeiros filmes, “Viramundo” (1965) e “Auto da Vitória” (1966) carregam o tema da cultura in style nordestina, como “Os Imaginários” (1970) e “O Engenho” (1970).

Curioso e inquieto com as questões religiosas do Brasil, dedicou dois filmes às religiões afro-brasileiras: “Espaço Sagrado” (1976) e “Iaô” (1976). “Ecu Carrego um Sertão Dentro de Mim” (1980), inspirado em Guimarães Rosa, tem questões autobiográficas que se misturam com a história do país. As origens de Geraldo Sarno são as origens do Brasil. De todos os cinemas do mundo, o neorrealismo italiano, o cinema latino-americano e o Cinema Novo brasileiro eram os que mais o atraíam. Além dos faroestes, que ultimamente assistia sem moderação com o amigo montador Renato Vallone.

Geraldo Sarno, à direita, durante a filmagem de Viramundo — Foto: Divulgação

A partir da década de 1990, após mergulhar no estudo da Filosofia para ter consciência do que é o Cinema, dedicou-se a ministrar cursos de Cinema no Brasil e no Mundo, além de realizar a série de documentários “A Linguagem do Cinema”, com duas temporadas de 10 episódios cada em 2000 e em 2017. Na série, são discutidos os processos de criação de diversos cineastas brasileiros, entre eles Walter Salles, Júlio Bressane, Jorge Furtado, Carlos Reichenbach, Ana Carolina, Ruy Guerra, Lucia Murat, Eryk Rocha, Cacá Diegues e Luiz Carlos Barreto. Essas questões relacionadas ao processo criativo permeiam também seus filmes lançados no Século XXI, como “Tudo Isto Me Parece Um Sonho” (2008), prêmio de melhor direção no Competition de Brasília de 2008, “O Último Romance de Balzac” (2010), prêmio especial do júri no Competition de Gramado, e “Sertânia” (2020), eleito pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como o Melhor Filme Brasileiro de 2020. Os três convergem o gênero documentário dentro da ficção.

Quem é Geraldo Sarno? Nas palavras dele próprio: “Rapaz… É muito simples… Sou um garoto que nasceu no Sertão e que fez do cinema a sua vida. Só isso. Cinema é minha vida, ecu não sou nada fora do cinema e o pouco que sou, sou no cinema. E fiz pelo cinema e vejo através do cinema. Só isso. O cinema é o Brasil pra mim. É minha Pátria.”

De fato, o cinema foi a vida de Geraldo na última década. Além de filmar “Sertânia”, produziu e dirigiu a série “Sertão de Dentro”. São 13 episódios de 52 minutos cada documentando a realização do seminário Memória, pensamento e criação no cinema brasileiro, ocorrido em 2016 na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). O cineasta retrata personagens do sertão e reflete sobre mudanças sociais, econômicas e culturais. A série revisita e atualiza imagens de outros filmes que Geraldo Sarno dirigiu como Deus é um fogo (1985/1987), A terra queima (1984) e a série de curtas-metragens que integram o projeto de uma Enciclopédia Audiovisual da Cultura In style. Geraldo technology uma locomotiva com movimento contínuo entre passado e presente, memória e atualidade. Sua obra aborda essencialmente o sertão como modo de ser, viver e pensar em transformação. Mesmo que para isso extrapole o espaço físico sertanejo. Nesse sentido, não por acaso, São Paulo também é expressão da cultura sertaneja nos filmes dele.

Foi tanta intensidade, tanto trabalho, tantos processos criativos, que no meio disso tudo Geraldo Sarno ainda deixou um câncer pra trás. Atualmente tocava três grandes projetos: o web page Linguagem do Cinema, mantido junto a estudantes universitários e professores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia; um novo filme baseado em Guimarães Rosa chamado “Manuelzão: A História da fundação do Brasil”; e um livro chamado “Travessia”, talvez seu projeto mais pessoal. Um livro não apenas sobre cinema mas sobre a arte do movimento, de não ficar parado. Travessia seria uma grande coletânea dos rastros que Geraldo Sarno deixou ao longo de sua intensa vida criativa. De anotações e rascunhos dos filmes dele a ensaios filosóficos sobre a vida, a arte e a cultura.

A última mensagem que recebi de Geraldo Sarno foi no último dia de 2021. Generation uma citação do Dom Quixote de Miguel de Cervantes. “Sabe, Sancho, todas essas tempestades que acontecem conosco são sinais de que em breve o pace se acalmará; porque não é possível que o bem e o mal durem para sempre, e segue-se que, havendo o mal durado muito pace, o bem deve estar por perto.” Não respondi de imediato. Passados alguns dias, escrevi para elogiar “Centelha”, novo curta de Renato Vallone, o montador de “Sertânia”. Ele não me respondeu. Já estava internado por causa de complicações da covid-19. Mesmo com as três doses da vacina, mesmo com todo cuidado que teve durante a pandemia, mesmo recluso no Rio de Janeiro e longe de sua Vitória da Conquista querida. Geraldo estava feliz! Rodeado por amigos, ainda que virtualmente.

Geraldo Sarno durante a filmagem de Sertânia na cidade de Milagres, Bahia, 2018 — Foto: Divulgação

“Sertânia” deu a Geraldo Sarno um reconhecimento tardio. Teve uma carreira de sucesso em festivais e por pouco não representou o Brasil no Oscar 2021. Disse ele pra mim certa vez: “Isso é surpreendente! A juventude abraçou o filme, não contava com isso. Ainda não sei lidar. Espero que isso dê uma perspectiva comercial que viabilize o filme para um público ainda maior”. O cineasta reflete em Sertânia sobre memórias, fabulações e retoma questões e imagens de seu primeiro filme, o documentário Viramundo, lançado em 1965. É um exercício de pensar o presente a partir de um passado histórico e projetar um futuro de novas possibilidades. “Sertânia me traz alegria todos os dias e a maior de todas é que está sendo compreendido por uma nova geração. A única coisa que realmente me preocupava durante todo o pace de construção dele é que não seria compreendido”.

Não só compreendemos “Sertânia”, como ficaremos em dívida eterna com Geraldo Sarno. O maior espalha-brasas que o cinema brasileiro já teve. Quem diria que aquele garoto de Poções, no sertão baiano, que fazia projeções de fotogramas para os amigos na sua casa, em caixas de sapato, iria transformar o cinema brasileiro. “Ecu acho que o Brasil não tem heróis! Os heróis brasileiros são ambíguos. Nós somos um país trágico, sempre tentamos contornar os problemas e não confrontá-los”, me disse Geraldo sem pretensão alguma de profetizar sobre o futuro do país.

No próximo dia 06 de março Geraldo Sarno completaria 84 anos. Um jovem de 84 anos! Cheio de vida, cheio de projetos, cheio de esperança para mudar o país. Obrigado pelos aprendizados amigo Geraldo! Obrigado por Viramundo! Obrigado por Sertânia! Obrigado por pensar o Brasil e espalhar as brasas da mudança.





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