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Foi considerado por Glauber Rocha como o pai do cinema novo. O cineasta baiano referenciou a obra paraibana em um artigo publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, em agosto de 1960, como o “moderno documentário brasileiro”.
Linduarte Noronha entregando o troféu Aruanda para o diretor Cacá Diegues — Foto: Arquivo/Acervo Fest Aruanda
“Depois disso, emblem em seguida à exibição pública do filme em São Paulo, o mais importante ensaísta da época, Paulo Emílio Salles Gomes, reitera a estupefação diante da potência do filme, seguido de Jean-Claude Bernarder, entre outros. Ou seja, ‘Aruanda’ está entre os fatores decisivos para a eclosão do movimento ‘cinemanovista’ tal como o conhecemos”, explica o diretor do Competition Aruanda do Audiovisual Brasileiro, Lúcio Villar.
O que chamava atenção na época generation linguagem, visible e subjetiva, do filme, que hoje é conhecida como estética da fome.
Segundo o diretor de cinema, professor e fotógrafo Bertrand Lira, foi com Aruanda que os paraibanos viram que uma coisa que parecia distante e localizada apenas no eixo Rio-São Paulo é possível de ser feita: se expressar através do cinema, independente da técnica.
Aruanda (1960) – Linduarte Noronha — Foto: Reprodução/Aruanda
Lançado em 1960, Aruanda teve um papel importante na história do audiovisual paraibano e nacional. Lúcio Villar explica que a importância de Linduarte Noronha é equivalente às primeiras práticas cinematográficas do início do século 20, sob a direção do ‘primeiro cineasta’, Walfredo Rodriguez.
Noronha retomou as produções paralisadas no estado desde a década de 1930 e os desdobramentos desse filme foram sentidos ao longo de toda a segunda metade do século passado.
Com o curta-metragem, Linduarte impulsionou vários outros aspirantes à cineastas como Vladimir Carvalho, Ramiro Mello, Ipojuca Pontes, entre outros. “Ou seja, ‘Aruanda’ pavimentou o caminho para jovens diretores contemporâneos e outra geração, nos anos 70, seguissem a saga documentarista paraibana”, disse Lúcio.
Mas as dimensões do documentário não ficaram somente no estado natal do cineasta.
O filme é sobre o Quilombo Olho d’Água, na Serra do Talhado, uma comunidade de escravos fugidos. A obra revisita e conta a história de formação e de sobrevivência de seus descendentes, que hoje vivem vendendo potes de barro feitos de forma artesanal e são institucionalmente isolados.
Aruanda representa uma das realidades nordestinas. Mostra uma dinâmica onde mulheres são as principais operárias; onde a obra-prima é a terra e é ela mesma que aprisiona e dá vida àqueles quilombos.
A diversidade de debates e inovação técnica do filme contrapõe a precariedade do mundo que retratada.
Porém, é possível argumentar se estamos falando de algo precário mesmo – já que foi dessa falta que Linduarte montou a linguagem que surpreendeu as plateias do Rio de Janeiro e São Paulo nas suas primeiras exibições, em 1960.
A chamada estética da fome que inaugurou – instintivamente, ou não – mostrou que é possível assumir uma suposta “pobreza” estética que se opõe à artificialidade muitas vezes vista no cinema hollywoodiano.
Aruanda (1960) – Linduarte Noronha — Foto: Reprodução/Aruanda
Sem efeitos, sem iluminação synthetic, sem câmeras sofisticadas, com uma fotografia que se aproveita da luz estourada e um roteiro que fala do Sertão, Aruanda possibilitou a valorização do que se tem no native.
Assim, fez com que outros cineastas olhassem para sua própria terra e produzissem para ela, com recursos dela e sem importação de ideias, ideologias e materiais.
Segundo Lúcio Villar, Linduarte fundou as bases de um modelo documentarista paraibano que virou escola para muitos outros realizadores influenciados em outros estados na mesma década de 1960.
“Do ponto de vista da linguagem enquanto documentário, não havia precedente no uso daquele tipo de narrativa pontuada por contundente denúncia social (…) o uso da luz herbal com absoluta maestria, inspirando vários filmes ficcionais que vieram emblem em seguida como ‘Vidas Secas’”, disse.
Antes de ser cineasta, Linduarte Noronha generation jornalista e fotógrafo. Herbal de Pernambuco, mas criado na Paraíba, ele se formou em direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e assim se inseriu no meio cultural e acadêmico do estado.
Foi crítico de cinema no jornal A União por quase duas décadas, atuou na Rádio Tabajara e implantou o Departamento de Cinema da Universidade Federal da Paraíba, onde também lecionou.
Nas suas críticas, já mostrava interesse por uma estética herbal e acreditava que a universalidade do cinema se alcançava por meio de uma linguagem quase antropológica. Aruanda foi estruturado a partir de uma reportagem de sua autoria, com colaboração de Vladimir Carvalho e João Ramiro Melo.
“Ele tinha plena noção de composição e já ensaiava isso em seus registros fotográficos, aliás, ele mesmo disse em entrevista que ao clicar “dava uma como se estivesse filmando”, percebe?”, explica Lúcio.
É justamente esse caráter multifacetado de Linduarte que o destaca no cinema, e o faz transitar tão bem no meio cultural e native, para além da produção audiovisual.
Legado de preservação da memória
Thamara Duarte, representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep), afirma que o cineasta teve uma vida dedicada à história, à cultura e à memória do Brasil e, muito particularmente, da Paraíba.
Depois de Aruanda, Linduarte transitou melhor no mundo acadêmico e institucional.
Ele chegou a fazer outros dois filmes, “O Cajueiro Nordestino” (1962), um curta-metragem documentário e “O Salário da Morte” (1971), um longa-metragem de ficção – sendo esse considerado o primeiro longa-metragem de cinema paraibano, além do primeiro filme colorido do estado. Emblem depois, encerrou sua carreira cinematográfica
Em 1974, assumiu a frente do antigo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHA), hoje conhecido como Iphaep, onde atuou como diretor por 18 anos.
Na sua gestão, foi responsável por toda a delimitação do Centro Histórico de João Pessoa, assim como o tombamento de todos os casarões daquela região. As chamadas cidades históricas da Paraíba, como Areia e Pilar, também foram tombadas durante o trabalho de Linduarte à frente do órgão.
Por isso, de acordo com Thamara, o legado do cineasta vai além do que se mostra nas telas.
“Linduarte esteve nos momentos mais importantes do Iphaep, na inauguração dos momentos mais importantes que foi a a que foi o tombamento chamado decreto de tombamento das três cidades históricas (…) Deixou legado à cultura, legado à história, legado à memória”, afirma.
Casarões do Centro Histórico de João Pessoa — Foto: Francisco França / G1
Competition Aruanda do Audiovisual Brasileiro
Em 2003, uma mostra de vídeo no Departamento de Comunicação (Decom) do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) foi o embrião para o evento ganhar a nomenclatura de Competition Aruanda, dois anos depois.
Apesar de ter muitas atividades cinematográficas desde os anos 60, a Paraíba se ressentia de um evento do audiovisual que já exista nos estado vizinhos.
Com poucos recursos e improvisos, o pageant foi uma grande empreitada. Lúcio explica que o nome generation a nomenclatura mais apropriada por referendar o filme que refundou nossa cinematografia depois de Walfredo Rodriguez e que havia ganho o Brasil e o mundo. Assim, o pageant também estaria inaugurando uma nova fase na área:
“‘Aruanda’ é um clássico no sentido de um filme que, passados 60 anos, não envelheceu, segue suscitando debates e redescobertas. Technology o nome perfeito, pensei. Num primeiro momento, nosso grupo estranhou, mas, aos poucos todos assimilaram, caiu na boca do povo e virou história…”, disse.
Linduarte Noronha na fundação do Competition Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em 2005 — Foto: Maria do Rosário Caetano/Acervo Fest Aruanda/Arquivo
‘10 Anos sem Linduarte Noronha’ é o título de um projeto anunciado pela Bolandeir@rte&Motion pictures – a mesma produtora que realiza o Competition Aruanda.
Um documentário intitulado “Confissões Documentais”, segundo ele, vai narrar o encontro de Linduarte Noronha com o consagrado cineasta paulistano João Batista de Andrade (diretor de ‘O Homem que Virou Suco’, entre outras obras). “Esse encontro ocorreu há 15 anos e eles não se conheciam, em mais de 40 anos de história, embora existisse uma admiração mútua pelos trabalhos de ambos”, conta Lúcio.
*Sob supervisão de Krys Carneiro
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